Novo pai: percursos, desafios e possibilidades

  • Carolina Duarte de Souza
Palavras-chave: estante de livros, leitura recomendada

Resumo

Everley Rosane Goetz é psicóloga com formação psicoterapêutica em clínica materno-infantil, professora universitária, doutora em psicologia e autora de artigos científicos, capítulos e livros sobre a parentalidade, mais especificamente voltados para o papel do pai. De sua dissertação de mestrado resultou o livro Pai real, pai ideal em parceria com o seu orientador, o professor doutor em psicologia do desenvolvimento Mauro Luís Vieira. Parceria que se repete no livro O novo pai: percursos, desafios e possibilidades, que propomos para a Estante de Livros dessa edição da NPS.

Os estudos sobre paternidade produzidos no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Desenvolvimento Infantil (NEPeDI) e coordenados pelo professor Mauro Luís Vieira são referências nacionais para pesquisadores e profissionais da área de família com crianças e adolescentes. E esse livro traz reflexões e discute possíveis implicações de resultados de uma trajetória de pesquisas sobre o tema. Para a realização do livro, os autores contaram com a colaboração de diferentes pesquisadores sobre o envolvimento paterno. Cada um dos 11 capítulos aborda um aspecto específico sobre o pai ou discute a paternidade sob uma perspectiva mais ampla ou contextual.

O primeiro capítulo "Ser mãe e ser pai: integração de fatores biológicos" escrito pelo segundo organizador da obra e por Carina Nunes Bossardi discorre sobre as alterações acerca da “função da mãe” e da “função do pai” nas últimas décadas. São tecidos questionamentos sobre essa divisão ao considerar a maior igualdade de papéis familiares desempenhados por ambos os genitores. Neste capítulo, também se discute sobre o investimento parental, e as características do cuidado paterno e materno.

Essa maior igualdade entre os papéis de pais e de mães, entretanto, não pode ser considerada uma regra, como apontado por Juliana Marion, Marilise Ferreira e Caroline Rubin Rossato Pereira no capítulo 11, “O homem, a paternidade, e a família no contexto de baixa renda". Ao discutir a paternidade em famílias de camadas populares, constata-se que naquelas menos favorecidas economicamente, a família extensa se destaca como importante rede de apoio. Por essa razão, as autoras refletem sobre a baixa solicitação de exigências direcionadas à figura do pai. Assim, em muitas dessas famílias, constata-se que o homem permanece, de modo geral, como provedor do sustento financeiro da família e a mulher como a principal cuidadora dos filhos, o que corresponde a um estilo mais tradicional de paternidade.

A forma como o homem exerce sua paternidade recebe diversas influências. No capítulo nove "A transmissão psíquica e a construção da paternidade", de  Carolina Figueiredo Cibella de Oliveira e Camila Peixoto Farias, discute-se que a identidade paterna não se inicia na descoberta de que vai ser pai, ao contrário, é algo construído desde a infância. Também são abordados aspectos psíquicos envolvidos na formação de uma família, quando o casal “deixa suas famílias de origem” e recebe de ambas mitos, histórias, enfim, uma herança genealógica e psíquica, com a qual precisa lidar. As autoras apontam que esses aspectos e a construção da relação com sua própria criança influenciam a constituição da paternidade.

O capítulo dois, "O pai e seus relacionamentos familiares: uma perspectiva intergeracional", escrito por Simone Dill Azeredo Bolze e Maria Aparecida Crepaldi, também busca explorar essas continuidades e mudanças nos relacionamentos familiares sob uma perspectiva intergeracional. Nesse sentido, constata-se que os pais tendem a reproduzir modelos (de como ser pai, de como ser cônjuge...) aprendidos na infância, mas diferentes fatores podem interferir para que essa transmissão não aconteça. Também se discute a associação entre relacionamento conjugal e parental, apontando uma possível relação entre o conflito conjugal e o baixo engajamento paterno com os filhos. Por fim, discute-se a importância de um fortalecimento na relação com os próprios pais, esposa e filhos para o desempenho pleno da paternidade.

A forma como pai e mãe interagem com os filhos apresenta peculiaridades. Assim, no capítulo sete, "Papel do pai no contexto contemporâneo", Rovana Kinas Bueno, Carina Nunes Bossardi e Mauro Luís Vieira buscam apresentar peculiaridades na forma como pais e mães brincam com seus filhos. Os autores discutem a importância da realização de brincadeiras turbulentas com a criança – “brincadeira de lutinha” – para seu desenvolvimento. Em geral, essas atividades são mais realizadas pelo pai. Assim, evidencia-se que o vínculo pai-criança está mais relacionado à estimulação e disciplina, favorecendo a criança para “abertura ao mundo”. Trata-se de uma forma específica de relação pai-criança, denominada de “relação de ativação”. Por fim, discutem-se as mudanças que os papéis do pai sofrem ao longo do desenvolvimento da criança.

O capítulo cinco "Interação do pai com seus filhos e filhas" explora a interação do pai com os/as filhos/as, por meio da discussão de resultados de uma tese sobre o assunto. Evidencia-se que, dos comportamentos de interação, o que o pai mais fez com as crianças foi fornecer instruções, demonstrar atenção/afeto e motivar o/a filho/a. O capítulo também traz reflexões sobre o que seria uma interação de “qualidade” entre pai - criança e o contexto em que essa interação se insere.

O capítulo seis, "A importância do pai no desenvolvimento da criança", escrito por Rovana Kinas Bueno, Lauren Beltrão Gomes e Maria Aparecida Crepaldi versa sobre as repercussões do envolvimento paterno para o desenvolvimento da criança em termos cognitivos, sociais, emocionais, psicomotores, entre outros. Também se discute a diferença na forma como pai e mãe interagem com a criança, e discute-se a importância dessa complementariedade de papéis. Enfatiza-se, ainda, que a ausência do pai biológico não significa a inexistência de figura paterna para a criança.

No capítulo três, "Envolvimento paterno no contexto da adoção", Rovana Kinas Bueno, Mauro Luís Vieira e Maria Aparecida Crepaldi discorrem sobre o envolvimento paterno em situações de adoção. Nesse capítulo, aborda-se brevemente: preconceito veiculados sobre adoção; a diferença entre adoção formal e informal, e as possíveis repercussões de cada uma delas; o momento da chegada da criança na família, a reorganização familiar, e o “tornar-se pais”. Esse capítulo se embasa em uma dissertação de mestrado, cujos pais adotivos entrevistados "esquecem" que seu filho é adotado. Por fim, evidencia-se o processo de contar ao filho sobre a adoção. Constata-se um elevado envolvimento dos pais da pesquisa com seus filhos, o que evidencia esse estilo emergente de paternidade, em que o pai está mais participativo da vida dos filhos, e cuja participação deve ser incentivada pelas mães. O capítulo evidencia que a paternidade é construída a partir da relação do pai com a criança, independentemente desta ser biológica ou adotiva.

O capítulo oito, "Paternidade em questão: o ponto de vista de acadêmicos do Direito", foi produto de uma colaboração de Dorian Mônica Arpini, Marina Bulegon Pilecco, Sabrina Daiana Cúnico, Amanda Pansard Alves e Ana Cláudia Smaniotto. Nesse capítulo, apresentam-se as mudanças ao longo dos anos sobre a tomada de decisão acerca da guarda da criança em casos de divórcio: atualmente, os interesses da criança são o princípio para orientar o juiz na escolha, e, nesse sentido, apresenta-se a Lei da Guarda Compartilhada, em que pais e mães possuem os mesmos direitos e deveres sobre a criança. Os acadêmicos evidenciam que os pais atendidos nos Núcleos de Assistência Jurídica Gratuita são em sua maioria distantes e pouco presentes na vida de seus filhos após a separação conjugal, evidenciando que o vínculo afetivo é fundamental para a criança, e não apenas o provimento do sustento financeiro. Nesse sentido, estratégias como mediação familiar e oficinas de parentalidade podem ser úteis para auxiliar as famílias na reflexão de que o relacionamento conjugal terminou, mas a parentalidade é para sempre.

O capítulo dez, "O pai se separa da mãe, e dos filhos? A relação pai-filho(s) após a separação conjugal", foi escrito por Caroline Pereira, Caroline Prola e Susan Silva. Nele reflete-se sobre o papel do pai no pós divórcio. Apresentam-se diferentes estudos sobre o assunto, e afirma-se a necessidade da readaptação dos pais em sua função de pais quando a separação conjugal acontece. No capítulo se diferenciam os termos “guarda compartilhada” e “acordos de convivência”. Discutem-se também fatores sociodemográficos e relacionais que interferem na qualidade do relacionamento pai-filho(s) após a separação conjugal, tais como a distância da moradia do pai e dos filhos, o emprego, escolaridade, recursos financeiros do pai, relação do casal parental quando o filho nasceu, satisfação materna em relação ao ex-companheiro e o fato de pai e mãe terem um(a) novo companheiro(a) em suas vidas. A mãe como mediadora na relação pai-filho(s) também foi apontada, bem como o direito da criança conviver com ambos os pais.

No capítulo quatro, "Um pai muito especial", de Edna Dias de Oliveira e Everley Rosane Goetz, descreve-se um caso clínico de um menino atendido em psicoterapia. O menino havia recebido, de um profissional da saúde, o diagnóstico de Transtorno de Espectro Autista (TEA); sua mãe era depressiva e não conseguia se vincular ao menino. Com a ajuda da psicoterapeuta e da participação do pai, a mãe foi sendo inserida na vida do filho e os dois, aos poucos, passaram a se vincular um ao outro. O diagnóstico inicial de TEA não foi confirmado, e o menino apresentou melhoras significativas em diferentes aspectos de sua vida, conforme relato de todos à sua volta.

Portanto, ao longo da obra, o pai é compreendido a partir de diferentes perspectivas epistemológicas. Nesse sentido, perspectivas como a evolucionista, a sistêmica e a psicanálise aparecem como uma forma de contribuir para as discussões acerca do pai e seu envolvimento com os filhos. Assim, essas perspectivas relevam-se complementares, oferecendo diferentes compreensões sobre o mesmo fenômeno. O livro também aborda diferentes pesquisas científicas sobre a temática, mas apresenta-se em uma linguagem simples para que pais que não estão envolvidos no contexto acadêmico também possam compreendê-lo. Por essa razão, há, inclusive, perguntas e sugestões voltadas a esse público.

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Biografia do Autor

Carolina Duarte de Souza

Doutoranda, mestre e graduada em psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Florianópolis

Referências

Goetz, E. R.; Vieira, M. L. (orgs.) (2015). Novo pai: Percursos, desafios e possibilidades. Curitiba: Juruá.

Como Citar
de Souza, C. D. (1). Novo pai: percursos, desafios e possibilidades. Nova Perspectiva Sistêmica, 25(55), 115-118. Recuperado de https://revistanps.com.br/nps/article/view/141
Seção
Estante de Livros